sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Na cave

Cresci numa cave de um bairro "chique" de Lisboa. A casa era simultaneamente para habitação e negócio da família. Das janelas fechadas por montras via a rua e as pessoas que passavam. Seria mais romântico dizer que via os pés das pessoas mas tal não corresponderia à verdade pois as montras estavam situadas à altura da anca de quem passava na rua e assim a minha visão abrangia daí para cima o que me permitia olhar para as estrelas.
Estrelinha cintilante que no céu estás a brilhar diz-me se aquele em que eu penso em mim está a pensar. Se isso acontecer que eu ouça um cão ladrar, uma porta bater ou um homem assobiar.
O cabeleireiro, pois era esse o negócio, era frequentado pelas "madames" mais bem situadas na sociedade de então. Era assim que as senhoras eram designadas, a madame tal e coisa ou a madame coisa e tal. Só mesmo as licenciadas eram designadas pelo título académico a Srª Drª qualquer coisa ou a Srª Engª fulana de tal. Todos estes tratamentos eram acompanhados de grandes sorrisos e alguns salamaleques de quem pertencendo ao escalão abaixo se punha em biquinhos de pés para poder roçar pessoas tão distintas.
Nessa altura não era tão cínica na apreciação destes detalhes como possa hoje parecer já que esse era o meu público. Sim, não me enganei, o meu público, pois gostava de fazer de "Marisol" à portuguesa e cantava desde a canção da La Novia do António Prieto até ao Tombe la Neige do Adamo. Tudo muito à moda do Rádio Graça e do "Peça mas a cantar". Claro que o meu espanhol e o francês tinham um sotaque bizarro e significados bem bizarros. Mas valia a intenção e a voz não era mázita, por isso eu nos meus 3 anitos subia para um banquinho dos pés (caixotinho de madeira onde as senhoras apoiavam os pés) e diante do tripé da bancada como microfone lançava os meus lamentos ao melhor estilo da menina da rádio. Belos tempos. As senhoras aplaudiam "canta tão bem a Cristininha".
A Cristininha cresceu e o cabeleireiro foi passando de atender as madames para atender a Dona fulana ou a Dona mengana. Nessa altura já deixara de dar espetáculo e já não era tão submissa e bem comportada.
A rebeldia, que não a revolta, fazia-me contestar o status quo vigente. As conversas bafientas chamadas "em família" pelo poder da altura era por mim escarnecidas diante de quem quer que fosse, madame, drª ou Srª Dona. Acho que no meu caso era uma rebeldia visceral e intrínseca, pois não havia ambiente que me estimulasse esta atitude. Dirão alguns, e o teu pai ele também era assim. Pois era, mas o convívio com ele era limitado às férias e a um fim de semana de dois em dois meses. Só mesmo por contágio nunca por aprendizagem. A aprendizagem começou depois do 25 de Abril, até lá era tabu.